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SBIm promove encontro com jornalistas para falar sobre meningites

"Meningites: informação vence o medo" foi o tema do IV Workshop SBIm para Jornalistas, realizado em São Paulo, no dia 17 de abril. A iniciativa ─ alinhada com o Dia Mundial de Combate à Meningite (24 de abril) ─ teve como objetivo fornecer informações para aprimorar a cobertura da mídia sobre o tema. Participaram mais de 20 profissionais de importantes veículos de comunicação de todas as regiões do país.

Na avaliação do presidente da SBIm, Juarez Cunha, o workshop foi extremamente positivo por esclarecer as dúvidas daqueles que são os responsáveis por fazer a informação chegar de forma massiva até a população. “A meningite é uma doença cercada de mitos e que suscita temor. É muito importante disseminar a mensagem de que não é necessário medo. Há recursos, muitos deles gratuitos, para preveni-la”, pondera Cunha, também membro da Coordenadoria Geral de Vigilância em Saúde da Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre (CGVS/SMS/PMPA).

Convidados e debatedores se preparam para seção de perguntas e respostas (Foto: Marcello Vittorino)

Vice-presidente da Sociedade e membro do Comitê Consultivo da Vaccine Safety Network (VSN), da Organização Mundial da Saúde (OMS), Isabella Ballalai, completa: “A promoção de conhecimento é uma das grandes missões da SBIm. Iniciativas como essa permitem não só compartilhar conteúdos como entender as demandas e estreitar o relacionamento com os jornalistas”.

Durante a palestra de abertura, Isabella observou que grande parte das pessoas busca a imunização somente depois que são informadas sobre casos, sejam próximos ou não. Situações vivenciadas, por exemplo, quando foram noticiadas ocorrências em escolas do Rio de Janeiro; na cidade de São Leopoldo (RS); e, em especial, após a morte do neto do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ter sido atribuída à meningite. Posteriormente, descobriu-se que a real causa do óbito foi infecção generalizada por Staphylococcus aureus.

A pediatra listou duas características que tornam esse episódio emblemático: a primeira é a divulgação precoce da causa da morte, antes da confirmação por parte dos médicos que acompanham o caso. “As meningites são de notificação compulsória, portanto as vigilâncias epidemiológicas municipal ou estadual, ou o Ministério da Saúde, devem ser consultados. A ânsia de publicar o furo de reportagem não pode se sobrepor à exatidão da informação", observou.

Isabella Ballalai, vice-presidente da SBIm, enfatiza que boatos sobre meningites são frequentes (Foto: Marcello Vittorino)

A segunda foram os rumores de que o caso era de meningite B, o que fez "a vacina mais cara do Brasil se tornar objeto de desejo e motivo de propaganda". Isabella esclareceu que a meningite — inflamação das membranas que revestem o cérebro e a medula espinhal — pode ser causada por diversos agentes, como os vírus, mais comuns, que geralmente levam a quadros não graves e contra os quais não existem vacinas; e as bactérias, potencialmente mais severas.

Destacam-se nesse sentido os meningococos (neisseria meningitidis),pneumococos (Streptococcus pneumoniae) e o Haemophillus Influenzae b (Hib). “Por limitações tecnológicas muitas vezes não conseguimos sequer identificar o agente, quanto mais definir o sorotipo. Os boatos, contudo, são recorrentes e geram pânico desnecessário e corrida às clínicas”, lamentou.

Epidemiologia

Os meningococos são a principal causa de meningite bacteriana no Brasil. A doença meningocócica mata um a cada cinco pacientes — letalidade que pode subir para até 50% em caso de meningococcemia (infecção generalizada) — e também é capaz de gerar sequelas como amputação de membros, surdez e problemas neurológicos. Existem 12 sorogrupos de meningococos, dos quais seis causam praticamente todos os casos da enfermidade: A, B, C, W, Y e X.

O sorogrupo prevalente no Brasil é o C. No entanto, desde 2010, ocasião em que a vacina meningocócica conjugada C foi introduzida no Programa Nacional de Imunizações (PNI), houve queda 80% para 59% na participação do C no total de episódios, além de redução de 70% nos casos de doença meningocócica em menores de 2 anos .

“No fim de 2018, o tipo B praticamente empatou com o C em São Paulo, e o W se tornou o mais frequente em Santa Catarina, provavelmente fruto do fluxo de estrangeiros provenientes de países onde esse sorogrupo é o mais comum”, exemplificou Marco Aurélio Sáfadi, membro da Comissão técnica para revisão dos calendários vacinais da SBIm e membro do Grupo Estratégico Assessor da Organização Mundial da Saúde (OMS) para vacinas meningocócicas.

Marco Aurélio Sáfadi, membro do Grupo Estratégico Assessor da Organização Mundial da Saúde (OMS) para vacinas meningocócicas, exibe dados a respeito da situação das meningites no país (Foto: Marcello Vittorino)

Outro ponto salientado pelo médico foi a importância da vacinação de adolescentes, disponível gratuitamente para a faixa de 11 a 14 anos. Cerca de 10% dos adolescentes e adultos são portadores assintomáticos da bactéria e podem transmiti-la sem saber. “A imunização desses grupos etários em um projeto desenvolvido em parceria com a Fiocruz fez a enfermidade praticamente desaparecer de Salvador”, relatou.

Após o meningococo, o agente bacteriano mais comum no Brasil é o pneumococo, que mata 30% dos que desenvolvem a meningite pneumococica e deixa sequelas em boa parte dos que sobrevivem. Existem mais de 90 sorotipos, mas as vacinas são capazes de prevenir os responsáveis pela imensa maioria dos casos de doença pneumocócica grave, englobando meningite pneumonia e septicemia (infecção generalizada). Desde 2010, quando o PNI incorporou uma vacina para prevenir a bactéria, bons resultados foram alcançados: em São Paulo, por exemplo, os casos de meningite pneumocócica caíram 50%. E o Hib, que no final dos anos 1980 era a principal causa de meningite bacteriana em menores de 5 anos, se tornou raro no país graças à vacinação.

As vacinas

Juarez Cunha falou sobre as vacinas disponíveis no Brasil, indicações, esquema de doses, entre outras questões. Um ponto que gerou bastante curiosidade nos jornalistas foi a “tradução” dos termos recombinante e conjugada, relativos à tecnologia usada para o desenvolvimento das vacinas. “A conjugada une (conjuga) a bactéria a uma proteína com capacidade de criar memória imunológica de longo prazo até mesmo em lactentes, o que minimiza a probabilidade de infecção assintomática. A recombinante, por sua vez, é elaborada a partir da manipulação genética”, explicou. Confira um resumo sobre as vacinas disponíveis:

  • Penta ou hexa: Exclusivas para menores de 7 anos, previnem o Haemophilus influenzae b e outras doenças.
  • Vacina Hib: previne o Hib.
  • Vacinas meningocócica conjugadas C e ACWY: Previnem a infecção pelo tipo C e os tipos ACWY, respectivamente.
  • Vacina meningocócica recombinante B: Previne o tipo B.
  • Vacinas pneumocócicas conjugadas (VPC10 ou VPC13): Previnem os sorotipos responsáveis pela maior parte dos casos de doença pneumocócica grave.
  • BCG: previne a meningite tuberculosa, causada pelo bacilo de Koch (Mycobacterium tuberculosis)

As Unidades Básicas de Saúde (SUS) disponibilizam as vacinas BCG, penta de células inteiras, Hib, VPC10 e a meningocócica conjugada C. Nos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIEs), pessoas com alguma condição que aumente a suscetibilidade às bactérias podem obter a VPC13. Caso não tenham se vacinado enquanto estavam na faixa etária contemplada pelo calendário de rotina do Programa Nacional de Imunizações (PNI), também podem receber a Hib e a meningocócica conjugada C.

Presidente da SBIm, Juarez Cunha apresenta aos convidados informações sobre as vacinas que previnem as meningites (Foto: Marcello Vittorino)

Coberturas, estratégias e novidade

O Ministério da Saúde percebe, especialmente a partir de 2016, um descenso progressivo na adesão à quase todas as vacinas. O cenário é bastante propício para a circulação de agentes infecciosos sob controle, fato evidenciado pela recente perda das condições para sustentar o certificado de eliminação do sarampo concedido pela Organização Pan-Americana de Saúde (Opas).

No que diz respeito à meningite, a coordenadora do PNI, Carla Domingues, demonstrou especial preocupação com as pessoas que recebem a primeira dose, mas não completam o esquema, o início tardio da vacinação e a adesão insuficiente dos adolescentes. “A cobertura média de adolescentes de 12 anos em 2017 não passou de 40%, e a de adolescentes com 13 anos ficou em torno de 30%. Além disso, há sete estados (AC, AM, AP, MA, PA, RR e TO) com taxa de abandono superior a 10%, índice considerado alto”, revelou.

Domingues afirmou que o Ministério da Saúde está ciente dos gargalos e citou uma série de ações que vêm sendo tomadas para minimizar o problema. São exemplos as recém-anunciadas medidas de estimulo para as Unidades Básicas de Saúde (UBS) ampliarem o horário de atendimento — o que beneficia quem não consegue comparecer em período comercial — e o Movimento Vacina Brasil, que pretende mobilizar população, profissionais da saúde e empresas.

Carla Domingues, coordenadora do PNI, na palestra "Coberturas vacinais e vulnerabilidade de crianças e adolescentes" (Foto: Marcello Vittorino)

A epidemiologista também ressaltou a importância da contribuição das entidades científicas como a SBIm, gestores de saúde e da retomada da parceria com a sociedade civil organizada, a exemplo do Rotary, que teve papel relevante no combate mundial à poliomielite. “O PNI não se faz apenas no nível técnico: é preciso que a vacinação esteja na agenda de todos os governantes, da mídia, sociedades médicas, entre outros. O programa não conseguiu os bons resultados que alcançou sozinho”, sublinhou.

Por fim, a coordenadora do PNI informou, em primeira mão, que o Ministério da Saúde se prepara — já com garantia em orçamento — para substituir a vacina meningocócica C pela ACWY na imunização de adolescentes, medida já adotada em países europeus, Austrália e Canadá, por exemplo. Não há, no entanto, previsão de quando isso irá acontecer, uma vez que não houve candidatos no primeiro pregão, muito em função da complexidade de atender à alta demanda do país. Um novo edital deve ser publicado em breve. E destacou: "O foco do Ministério da Saúde sempre será a proteção coletiva, mas apoiamos a indicação de todas as vacinas disponíveis”.

O workshop, além de informar, resultou na veiculação de dezenas de matérias sobre o tema.