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Especialistas debatem desafios e estratégias para reverter baixas coberturas vacinais

A queda nas coberturas vacinais verificadas o longo dos últimos anos levou o Brasil a enfrentar importantes surtos de febre amarela silvestre e de sarampo, enfermidade que retornou pouco mais de um ano depois de o país receber da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) o certificado de eliminação. Os desafios diante do cenário e possíveis estratégias para revertê-lo foram amplamente debatidos durante a XXI Jornada Nacional de Imunizações, em Fortaleza.

O primeiro passo para buscar soluções é compreender as causas. Nesse sentido, os palestrantes foram unânimes ao apontar que a hesitação em se vacinar — incluída pela Organização Mundial da Saúde (OMS) entre as principais ameaças à saúde global — passa pela perda de percepção de risco por parte da população, dificuldade de acesso às Unidades Básicas de Saúde (UBS), falta de prescrição médica e de capacitação dos profissionais que atuam na ponta, bem como pela disseminação de fake news.

“Com o desaparecimento das doenças, passa-se a duvidar do benefício da vacinação e imagina-se que os raros eventos adversos são mais perigosos do que a infecção pelo vírus selvagem”, lamentou Carla Domingues, ex-coordenadora do Programa Nacional de Imunizações (PNI). O presidente da SBIm, Juarez Cunha, concordou e reforçou que as vacinas são seguras e eficazes. “A maioria dos eventos adversos é leve e regride rapidamente. Ainda assim, muitas vezes eles não são de fato causados pela vacina, mas por coincidências ou erros humanos”, ponderou.

A vice-presidente da SBIm e membro do Comitê Consultivo da Vaccine Safety Net (VSN), da OMS, Isabella Ballalai, avaliou que a população, “descrente, desconfiada e ávida por informação” é presa fácil para movimentos antivacinação — felizmente ainda discretos no país — e boatos disseminados via redes sociais. Ela, porém, acredita que a desinformação não vingaria se os profissionais de saúde fossem mais enfáticos no dia a dia. “Já foi demonstrado por diversas pesquisas nacionais e internacionais que nós somos as referências para as pessoas. Precisamos ter confiança para dizer: isso não existe, é besteira”, afirmou.

Como atrair

As campanhas de vacinação realizadas no Brasil, com destaque para a criação do Zé Gotinha, personagem que se tornou querido por todos, são inegavelmente um exemplo mundial. Os tempos, no entanto, mudaram. “Não adianta esperar com as portas abertas. Ou nos tornamos mais proativos e buscamos alternativas ou a população não irá se vacinar. O Ministério trabalha cada vez mais no Facebook, Instagram e outros meios, mas ainda de forma tímida. Estamos aprendendo”, destacou Domingues.

O pensamento é o mesmo do coordenador de comunicação da SBIm, Ricardo Machado. O jornalista constatou que as ações de comunicação atuais são semelhantes às desenvolvidas nos anos 1970. A transmissão de informação segue, basicamente, uma linha publicitária e vertical. De acordo com ele, é necessário evoluir para um modelo horizontal, ou seja, que dialogue com o público-alvo.

“Uma mensagem única não é a melhor forma de atingir uma população com vivências completamente distintas. É fundamental que estados e municípios adaptem o discurso à realidade local e que líderes comunitários sejam procurados para colaborar no engajamento”, defendeu.

Evitando a perda de oportunidades

O convencimento, no entanto, não é o único obstáculo a ser superado. A violência e, em especial, o período de funcionamento limitado das Unidades Básicas de Saúde (UBS) impede responsáveis que trabalham em horário comercial de levarem as crianças às salas de vacinação. Em abril deste ano, o Governo anunciou medidas de estímulo às unidades que estendessem o atendimento, mas, até o momento, apenas 2.000 das cerca de 44 mil UBS têm equipes suficientes para aderir.

Além disso, é possível identificar falhas de conhecimento nos profissionais, em muito motivadas pela alta rotatividade, que dificulta o processo de treinamento, apesar de haver iniciativas com esse objetivo. A falta de qualificação faz, por vezes, que indivíduos sejam orientados a retornar em outro momento por conta de fatores que não impediriam a vacinação. “Será que uma mãe, após faltar ao trabalho, voltará ao posto sabendo que corre o risco de ser mandada para casa novamente?” questionou a vice-presidente da SBIm – Regional RJ, Tânia Petraglia, lembrando que o desabastecimento também é parte desse círculo vicioso.

Ainda no que diz respeito à capacitação, Machado e outros palestrantes apontaram a importância de incluir o tema como parte do protocolo de atendimento, independentemente do motivo que levou o paciente às UBS. “A transformação que queremos passa pela consolidação de uma cultura de vacinação”, declarou. Ballalai, por sua vez, acrescentou: “Todos devemos estar prontos para orientar e tirar qualquer dúvida que o atendido venha a ter, sempre demonstrando empatia. Não existe falta de tempo quando o assunto é saúde pública”.