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Em cinco meses, Portugal teve mais casos de sarampo do que nas últimas décadas

Via Giuliana Miranda​, do Medscape
Publicado originalmente em http://portugues.medscape.com/verartigo/6501244

Após três anos sem registrar nenhum caso de sarampo – o que rendeu ao país uma certificação da Organização Mundial da Saúde (OMS) de eliminação da doença em 2016 –, Portugal está novamente diante de um surto do vírus. Entre 1º de janeiro e 31 de maio de 2017, foram confirmadas 29 infecções e uma morte em território português.

Por enquanto, a única vítima fatal do atual surto foi uma jovem de 17 anos que morreu no Hospital de Cascais. Ela não havia sido vacinada. Uma das irmãs dela, que tampouco fora imunizada, acabou também infectada, mas sobreviveu.

Com isso, Portugal passa a engrossar as estatísticas do sarampo no continente europeu, onde a doença voltou a crescer em 2016[1] e segue em expansão também neste ano.

Segundo a OMS, a situação já é considerada endêmica na França, Alemanha, Itália, Suíça e Ucrânia. Todos esses países têm em comum uma taxa de imunização abaixo dos 95% – o recomendado pela organização – para a segunda dose da vacina.

Em números absolutos, a Romênia é o país mais atingido. Entre 1º de janeiro de 2016 e 14 de abril de 2017 – últimos dados oficiais divulgados –, houve 4.793 casos de sarampo, com 22 mortes.

A Itália vem em segundo lugar. Só em 2017, as autoridades italianas já contabilizaram 2.581 casos, sendo 215 desses em profissionais de saúde. Entre os infectados com o sarampo na Itália, 89% não tinham a imunização contra o vírus.

Embora os números portugueses ainda estejam bem distantes dos números dos vizinhos europeus, com a circulação do vírus em território nacional e o crescimento dos movimentos antivacinais, Portugal voltou a discutir a possibilidade de tornar a vacinação obrigatória.

O assunto, por enquanto restrito aos meio acadêmicos e à mídia, será debatido em breve pelo parlamento português. Uma petição pública de iniciativa popular que pede a obrigatoriedade da imunização contra o sarampo atingiu mais do que o dobro do número de assinaturas necessárias para ser analisada pelos deputados.

Atualmente, a vacina contra o sarampo, oferecida em duas doses – a primeira aos 12 meses e um reforço aos cinco ou seis anos –, é gratuita, e faz parte do Plano Nacional de Vacinação. Mesmo não sendo obrigatória, ela é descrita como "altamente recomendável" pelas autoridades de saúde.

"Infelizmente, isso ainda não é o suficiente. Sabemos que a cobertura vacinal em Portugal é alta, mas os pais que optam por não vacinar os filhos acabam colocando outras famílias em risco. Algo precisa ser feito", diz Margarida Vaqueiro Lopes, 32, autora da petição.

Com uma filha de 11 meses na creche, ela diz que também não se sente segura com o fato de as escolas não exigirem a cobertura vacinal completa das crianças na hora da matrícula. As autoridades oficiais de saúde em Portugal se recusam a comentar uma possível orientação neste sentido.

​O Centro Europeu para o Controle de Doenças (ECDC) reconhece que há um surto prolongado no continente. A chefe do Departamento de Doenças Preveníves com Vacinas do ECDC, Dra. Lucia Pastore Celentano, classificou como "preocupante" o aumento do número de indivíduos não vacinados na Europa, especialmente com a oferta de imunização segura e gratuita.

"Acabar com as lacunas de imunização em adolescentes e adultos que não receberam vacinas no passado, assim como reforçar os programas de imunização de rotina na infância, são medidas vitais para prevenir futuros surtos e garantir níveis adequados de proteção", disse a Dra. Celentano em entrevista ao Medscape.

A representante do centro europeu não quis comentar sobre as discussões, cada vez mais fortes em Portugal, na Itália e em outros países, sobre a possibilidade de tornar a vacinação obrigatória.

"Qualquer proposta de estratégia de vacinação precisa ser desenvolvida levando em consideração o contexto e os hábitos locais. Não há, em nenhum país, associação óbvia entre vacinação obrigatória, sem medidas complementares, e o efetivo aumento da imunização", afirmou.

"A cobertura vacinal é movida por diversos fatores, como o acesso e a disponibilidade da vacina, o tipo que é oferecido, e ainda os custos para quem a recebe, além de informações e atividades de comunicação apropriadas. O que já se provou exitoso em um país pode não ter o mesmo impacto em outras condições. Além do mais, alguns países sem mecanismos específicos de vacinação obrigatória atingem altas taxas de cobertura vacinal em seus programas de imunização infantil", completou.

Um artigo publicado no periódico Eurosurveilance, em 2012, analisou o sistema de vacinação –bem como a obrigatoriedade, as estratégias e os custos – em 30 países europeus. O resultado foi ao encontro das afirmações da médica infectologista do ECDC.

"A vacinação obrigatória pode ser considerada como uma forma de melhorar a aderência a programas de vacinação. No entanto, muitos programas na Europa são efetivos, apesar de serem voluntários, apenas com recomendações de vacinação", diz o trabalho.[2]

Situação portuguesa

Embora a maior parte dos casos em Portugal tenha acontecido em jovens ou adultos não vacinados, as autoridades dizem que a situação está sob controle. A Direção-Geral da Saúde (DGS), órgão do governo responsável pela prevenção de doenças, minimizou os riscos de propagação em larga escala.

"Temos uma cobertura vacinal que cumpre os padrões internacionais e da OMS, com 95% para duas doses de vacina do sarampo e até mais elevado para uma só dose", diz Teresa Fernandes, da coordenação do Programa Nacional de Vacinação da DGS. A especialista reconheceu, no entanto, a existência de alguns bolsões e grupos menos vacinados.

"De fato existem algumas assimetrias locais e de comunidades menos vacinadas. Comunidades onde se registram coberturas mais baixas. Temos conhecimento deste fato e as autoridades de saúde em nível local e regional estão a tomar medidas para corrigi-las. Nos últimos anos temos notado comunidades menos vacinadas, talvez em maior número. Mas o surto de sarampo talvez possa vir a recordar a importância da vacinação", completou.

A aposta das autoridades portuguesas têm sido monitorar de perto o histórico de vacinação das crianças. Em todo o país, está disponível um sistema computadorizado que avisa quem não está com as imunizações em dia.

"O sistema diz quem tem a vacinação atrasada. A partir de um mês de atraso, o sistema dá alertas. E as pessoas são convocadas, ou por telefone ou por carta, para irem ao centro de vacina vacinarem-se", explicou Teresa, acrescentando que o órgão também está reforçando as campanhas de promoção e de acessibilidade às vacinas.

A maior parte dos casos de sarampo em Portugal (21) está concentrada na região de Lisboa e Vale do Tejo. Um segundo foco, no Algarve (sul do país) já teve sete episódios confirmados.

Assim como em outros países europeus, os profissionais de saúde têm sido diretamente afetados. Em Portugal, eles respondem por 45% dos casos.

A Direção-Nacional da Saúde diz ter reforçado as ações de prevenção também entre esse público. Chefe de Serviço da Pediatria do Hospital de Vila Franca de Xira, na Grande Lisboa, a Dra. Florbela Cunha conta que, diante do cenário, foi preciso reforçar a mensagem de prevenção às equipes.

Houve um esforço para identificar todos que não tinham as duas doses de imunização contra o sarampo.

"Não só médicos, como enfermeiros e auxiliares, pelo menos no serviço de pediatria. Todas as pessoas que não tinham as duas vacinas tiveram de se vacinar. Pelo menos três médicos e duas enfermeiras receberam mais uma dose", conta a médica.

Como a última epidemia de sarampo em Portugal aconteceu em 1994, há mais de 20 anos, a Dra. Cunha destaca que também houve o cuidado de rever com os médicos os aspectos clínicos da doença.

"A geração mais nova de médicos, que tem agora 30 anos, nunca viu nenhum caso de sarampo. Porque nós já não víamos sarampo em Portugal há muitos anos."